Vietnã 1

Vietnã

Em P40 por perdidoaos401 Comentário

Virei a próxima esquina e o que vi não era muito diferente da rua que acabara de passar, transito infernal, motos buzinando para todos os lados, vindo na contramão me fazendo desviar delas, até mesmo nas calçadas, ruas sujas, vendendores ambulantes oferecendo de côco a ópio, restaurantes chamando para entrar, lojistas querendo vender calçados, bolsas, ouro e café, aquilo era um caos, eu estava em Hanoi no Vietnã.

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No meio daquele movimento estressante percebi uma ordem, ninguém se chovava com ninguém, as motocicletas desviavam de mim, quando eu atravessava a rua, elas não paravam e o buzinar faz parte da cultura, não era para eu sair da frente e sim para dizer que estava vindo, os insistentes vendedores nas ruas sorriam, tentando se comunicar com seu pouco conhecimento de inglês, muitos usando a famoso chapéu vietnamita, quando eu dizia que não queria algo eles sorriam apenas e paravam de insistir.

Quando disse ao meu pai que estava indo ao Vietnã ele retrucou na mesma hora.Vietnã 3

– Mas e a guerra?

A guerra acabou em 1975 e deixou muitar marcas naquele povo e no mundo mas essa é a visão de muitas pessoas quando falo o nome do Vietnã, mas e a guerra?

A guerra que durou quase 20 anos exterminou milhares de pessoas, das formas mais crueis que podem existir, lá a guerra é conhecida como Guerra Americana, o norte venceu o sul, o principal motivo da guerra era que o Vietnã do norte queria ser uma pátria socialista comunista e o sul queria liberdade, o norte lutou com seus Vietnã 4vietcongs tendo apoio da antiga União Soviética, China e outras pátrias comunistas e o governo do sul foi apoiado principalmente pelos Estados Unidos e aliados como Austrália, Coreia no Sul, Tailândia e outros países anti comunistas. A guerra acabou em 30 de Abril de 1975 com a queda de Saigon, o principal líder comunista do país era Ho chi Minh que já havia morrido em 1969 e após a derrota do sul, Saigon teve o nome alterado para o nome desse líder, hoje a cidade se chama Ho Chi Minh City e tem sua estátua bem na rua central da cidade.

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Não é difícil entender os horrores da guerra quando se visita o museu da guerra em HCMC (Ho Chi Minh City), saí de lá com o peito dilacerado.  Logo que entrei me deparei com aviões de guerra e helicopteros, utilizados pelos Estados Unidos, depois algumas celas e armadilhas onde os vietcongs ficavam presos e torturados, dentro do prédio principal cada andar despertava uma emoção diferente em mim, impossível não deixar as lágrimas rolarem diante do cenário da guerra, em um dos andares do prédio existe uma ala para o Agente Laranja, a guerra química, cruel e covarde. Saí do local em silêncio e caminhando entre aquele povo comecei a volarizar ainda mais aquele sorriso, filhos e netos da guerra estavam por toda parte.

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Eles querem vender de tudo, eles te atropelam nas ruas oferecendo massagens, stripper, drogas, comidas e mais uma infinidade de coisas. Eles te ajudam com o que precisam. Esqueci meu passaporte na última cidade que estive antes de chegar em HCMC, só percebi a falta do documento quando desci do ônibus, 5 horas de viagem depois, saí desesperado e entrei na primeira agência de turismo que encontrei, era noite e pedi para uma garota que trabalha no local uma passagem de volta para Mui Né, de onde havia partido, ela queria entender por que queria voltar já que ela havia me visto descer do ônibus naquele instante, expliquei o que ocorrido e ela sorriu, pediu o telefone do local onde estava e fez uma ligação, em vietnamita perguntou se meu passaporte estava com eles, depois da confirmação acertou para que o documento fosse entregue na tarde do dia seguinte, eu não sabia como agradecer, ela disse para não me preocupar que estava tudo acertado já.

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No final da tarde do dia seguinte ela me ligou, meu passaporte estava com ela, corri para agência, antes parei em uma cafeteria e comprei uma caixa de biscoitos com chocolate para presentea-la pela gentileza, ela entregou o passaporte e não me cobrou nada, eu entreguei o presente e a felicidade no sorriso dela era nítida, nesse ponto eu já havia criado um apego aquele povo que só me deu motivos para sentir saudades.

Na manhã do dia seguinte a visita ao museu eu parti de ônibus local um pouco mais para o sul da cidade, uma região chamada de Cu Chi Tunnels, onde mais de 100km de tunels foram construídos pelos vietnamitas do norte para surpreender os do sul e, que foi uma das principais armas para a vitória dos Vietcongs. No ônibus ainda, à caminho da reigão, uma linda garotinha vietnamita brincava de se esconder de mim no banco logo a minha frente, eu tentava captar uma foto dela, mas ela sorria e se escondia, até o momento em que ela resolveu me olhar pelo canto da janela e eu consegui minha foto, uma das mais marcantes da minha viagem pela Indochina.Vietnã 8

Os tunels são estreitos, a estrutura óssea dos vietnamitas é pequena e por isso eles não precisavam ser maiores do que são, me arrastei por alguns deles, impressiona como foram projetados, com ambulatórios, salas de reunião e refeitórios, todos interligados por mais túneis, uma pequena rocha no caminho logo acima pode ser uma entrada de ar, ou uma das pequenas entradas do tunel.

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Aquele local viveu uma das histórias mais tristes que já vi, não havia ainda estado no Camboja e conhecido o horror que a guerra do Vietna e a guerra civil que veio logo a seguir deixaram de marca naquele país, não havia ainda estado no Laos e saido do museu de uma ONG chorando tentando entender todo aquele horror que havia acontecido com eles.

Vietnã me marcou de todas as formas e foi justamente andando por suas ruas, pelo caos, dormindo nas montanhas com uma senhorinha da etnia Hmong, cozinhando o tofu mais gostoso que já comi na vida, descido o país de norte a sul, conhecido cavernas, praias, rituais e conversado com tanta gente que descobri a felicidade.

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Foi no sorriso daquela garotinha da foto que vi que a dor passa, as lembranças ficam mas a vida é mais forte que tudo, mais forte que a dor, mais forte que o horror, mais forte que tragédias, mais forte que depressão, mais forte que mágoas, mais forte que a morte, aquela garotinha, neta ou bisneta da guerra sorria com tanta simplicidade, como quem dizia, eu não vivi a guerra, sei pouco a respeito, mas eu sou feliz.

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Saí de lá no último dia do meu visto, 30 dias depois de chegar onde não sabia quase nada, como muita gente e, enfim entendi que todo mundo tem o motivo para ser feliz, não acho que não, todo mundo tem o direito de ser feliz, mais ainda, todo mundo tem a obrigação de ser feliz.

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Um dia eu volto para você minha querida Vietnã.

Perdido aos 40

Comentários

  1. Sua capacidade em escrever com tamanha riqueza de detalhes nos proporciona abstratamente em ter as sensações que você teve.
    Parabéns!

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