Oi mãe, tudo bem aí em cima? 1

Oi mãe, tudo bem aí em cima?

Em P40 por perdidoaos40Leave a Comment

Hoje é dia das mães aqui no Brasil e me deu vontade de bater um papo contigo, mas fique tranquila, não será um puxão de orelha dessa vez.

Faz pouco mais de 16 anos que não nos vemos, o tempo voa mesmo né? Diz uma coisa, aí de cima o tempo passa na mesma velocidade que aqui?

Como são as pessoas por aí? Acredito que são bem legais, pelo que vejo nos filmes pelo menos, a senhora já encontrou alguma celebridade aqui da terra? Lembro que a senhora gostava do Legião Urbana, já teve oportunidade de bater um papo com o Renato Russo?

Eu aqui estou indo bem, eu acho que a senhora sabe né? Não me lembro como era a comunicação entre aí e aqui, afinal faz mais de 46 anos que voltei para cá, mas espero que de vez em quando a senhora tenha conseguido dar uma observadinha.

Ah, falando nisso, queria pedir desculpas por não ter seguido minha intuição de não entrar naquele negócio que deu errado, a intuição estava muito forte me pedindo para não investir, mas eu entrei de cabeça e me ferrei, tenho certeza que tinha uma mãozinha sua ali, digo isso pois desde criança, a senhora tinha aquela mania de olhar nos nossos olhos e só depois dizer se podíamos ou não fazer algo. Meu pai disse que a senhora tinha esse lance de adivinhação, intuição, hoje eu sinto muito isso também e aprendi a respeitar esse meu guia. Então desculpa aí por não ter captado os sinais.

Sempre achei muito boa essa relação entre mães e filhos, esse sentimento louco que invade a gente né, sem tamanho, sem jeito, sem forma, invencível, e sempre gostei de me colocar como seu filho, a senhora que cuidava de mim, não o contrário, cada um no seu quadrado, ha ha, acho que a senhora não entendeu direito essa última frase, foi uma daquelas músicas besteirol que nosso país transforma em sucesso do dia para noite e depois desaparece. Ainda bem.

Então, eu dei um surtadinha alguns anos atrás, vendi tudo e caí na estrada, mas eu acredito que a senhora já saiba disso e não me desaprovou. A senhora lembra quando eu era adolescente e me perguntou o que eu queria ser quando crescesse?

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Malta

Respondi que queria conhecer o mundo, aí eu fui ser um monte de coisas enquanto empurrava essa vontade dentro de mim para algum canto, a senhora queria que eu fosse ator, ha ha eu tentei, a senhora lembra disso, fiz até um book que a senhora copiou e mandou algumas fotos para a Globo e para o Miguel Falabella, hahaha, essa foi ótima, eu estava morando nos Estados Unidos na época, aliás foi a senhora que me empurrou para essa vida nômade viu, pois lembro que me olhou naquele dia e simplesmente falou:

– Você vai morar com a Debora nos Estados Unidos.

Oi? Como assim? Dois meses depois eu estava na Florida, minha primeira viagem de avião, minha primeira vez fora do Brasil e sozinho ainda, ha ha que loucura pensar nisso hoje mas, foi ali que eu ganhei o mundo, apesar de ter ficado muito pouco tempo, eu aprendi um inglês razoável que me garantiu aquele emprego na antiga Varig e aí comecei a viajar igual louco por aí, culpa sua!

Obrigado por isso.

Aí alguns amigos me diziam que iam em casa me procurar e a senhora dizia assim:

– O André? Esta em algum lugar por aí. Respondia apontando o dedo para o céu.

Hoje sou eu que aponto o dedo para o céu, para te dar um toque, um oi.

Então mãe, aí eu sinto que ganhei o mundo, já viajei bastante, muitos lugares diferentes e aprendi a comer muita coisa diferente também, não tudo, a senhora bem sabe, mas melhorei bastante meu paladar.

Sabe de uma coisa legal? Eu sinto tua falta mas, de vez em quando, eu tenho algumas surpresas com mães alheias, quando a mãe de algum amigo me abraça e diz que me ama como um filho, eu fico todo arrepiado, já ganhei até benção com um toque de dedos na testa, foi uma senhora desconhecida, numa cachoeira, senti tuas mãos.

É muito gostoso receber esse carinho todo delas.

Mãe, eu estou seguindo um estilo de vida bem alternativo, a senhora sabe, tentei me encaixar nos moldes, mas eu não me sentia bem, então resolvi seguir o coração e, apesar de fazer quase tudo sozinho, eu tenho aprendido muitas coisas diferentes e vivido de uma forma muito verdadeira para mim assim tem feito mais sentido, estou indo devagar, para entender bem as lições, mas sentido muita gratidão, principalmente pela forma como sou recebido pelas pessoas na estrada, sempre com as portas e os corações abertos para mim.

Eu sempre quis te perguntar uma coisa mãe, sabe aquele dia em Nova Iorque? Foi a senhora que segurou meu braço quando começou a nevar? Eu senti tão forte que era a senhora, sempre fiquei na dúvida pois me virei chamando seu nome em voz alta no meio da rua, foi tão estranho, ha ha.

Bom, eu vou terminar esse papo aqui, só queria te dizer que sinto um orgulho imenso de ter tido a oportunidade de passar alguns anos ao seu lado, aprendendo contigo, e muita gratidão por ter me permitido ser seu filho.

Sempre dizem que amor de mãe é eterno, o desse filho aqui também é.

Uma última coisa, aquilo que te falei esses dias na fogueira, foi sincero viu. Vai lá ser feliz, a senhora merece.

Te amo.

André P40

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