Ayahuasca 1

Ayahuasca

Em P40 por perdidoaos401 Comentário

Esse é um texto livre onde eu conto minha primeira experiência com essa medicina sagrada xamanica a Ayahuasca.

Explicando de uma forma muito superficial, essa medicina é obtida com a mistura do Cipó e de um arbusto chamado Chacrona, e amplamente utilizada pelas tribos indígenas em toda América do Sul e outros países.

Dessa mistura nasce um chá batizado como Ayahuasca.

Não vou me aprofundar nos efeitos químicos dessa medicina, isso é simples de encontrar, se tiver interesse já sabe onde buscar, só cito alguns efeitos que são curativos como desintoxicação e reativação de órgãos danificados e redutor de dependências químicas

No sábado, dia 27 de Abril de 2019, eu consagrei (essa é a forma correta que o ritual é conhecido), a Ayahuasca pela primeira vez, a cerimônia começou às 8 horas da noite e foi finalizada às 8 horas da manhã, em um sítio no bairro de Ratones no norte da ilha de Florianópolis.

A partir daqui começo a contar como foi essa minha primeira experiência, mas já adianto que, por mais que eu tenha me esforçado para ser o mais fiel possível a tudo que vivi naquela noite, é praticamente impossível, por ter sido a experiência mais profunda, verdadeira e repleta de amor que já senti na vida até os dias de hoje 09/05/2019.

Claro que cada pessoa tem uma experiência diferente, não existe certo ou errado, apenas a verdade de cada um, então leia esse texto sabendo que trata-se apenas do meu simples relato e minha vontade de entregar essa vivência à vocês.

Como última informação é importante dizer que essa medicina não é considerada ilegal pelo governo brasileiro e é considerada patrimônio cultural da Nação pelo Peru.

A celebração

Ayahuasca 3

A celebração foi conduzida pelo Cacique Mapu, da tribo Huni Kuin do Acre, sua irmã, Bismani, também participou da celebração, assim como outras pessoas da organização que foram responsáveis pelo cuidado do local e de todas as pessoas que participaram da consagração.

Foram consagradas 2 medicinas naquela noite, o Rapé e a Ayahuasca, sendo 3 rodadas de Rapé e 2 do chá.

Uma amiga me aconselhou a não ficar ansioso mas, no dia da consagração, eu só pensava nisso desde manhã, não tinha o que fazer. De qualquer forma decidi me entregar totalmente a experiência.

Acontece que, no momento que estava no local para a cerimônia, minha ansiedade diminuiu e tive certeza de que estava no lugar e na hora certa. Digo isso pois já fazia tempo que pensava em ter essa vivência mas não sabia onde, com quem, esse lance de confiar etc.

Mapu deu início a cerimônia com uma grande roda de oração, depois explicou um pouco sobre o Rapé e o chá e disse que nós estávamos seguros naquele local, que o portão estava trancado para nossa segurança e todos seriam liberados as 8 da manhã, disse que se tivesse vontade de ir embora, durante a consagração, era para acalmar a ansiedade e, se precisasse, procurar alguém da casa. Haviam umas 10 pessoas no apoio.

Gente, que fique claro que o motivo do portão da fazenda ficar fechado é para a nossa própria segurança, ninguém lá é obrigado ou forçado a absolutamente nada mas, uma vez que se toma o chá, só saí quando abrem o portão, depois de comer algo etc.

Mapu e sua irmã pintaram nossos rostos com urucum, como é tradição de sua tribo no Acre. Após a pintura eu levei o primeiro sopro do Rapé, dessa vez eu soube como aproveitar dessa medicina que é bem utilizada para pessoas que sofrem de sinusite. Deixá-la agindo na região do nariz e testa e respirar somente pela boca, Mapu nos aconselhou a meditar logo após o uso do Rapé já que ele age no chacra do terceiro olho.

Deixei a medicina agir durante alguns minutos e depois assoei o nariz para limpar o excesso, voltei a respirar tranquilamente pelo nariz. As músicas começaram, a cerimônia foi inteira cantada, desde a abertura até o encerramento pela manhã, as músicas nos ajudam a entrar em contato com o nosso subconsciente. Existem diferentes formas de consagrar o chá, diferentes cerimônias, como rezadas ou em absoluto silêncio, isso depende do tipo de celebração.

A sagrada medicina agiu em meu organismo a noite toda, até o amanhecer, eu aproveitei das duas rodadas do chá e de 2 do rapé.

Cada hino foi uma experiência diferente para mim e muito profunda.

Senti que minha visão, tato e audição estavam muito mais aguçados e sensíveis, acho que ampliadas até. Logo depois de tomar o chá pela primeira vez, eu fui me deitar no meu cantinho, onde havia colocado uma cadeira de praia e um saco de dormir para me aquecer, pois avisaram que poderíamos sentir frio durante a noite. Fechei meus olhos e acalmei a minha respiração, alguns minutos depois, comecei a ver muitas cores, cores tão vivas que pareciam lâmpadas neon. Mapu havia dito que a Jiboia é um dos símbolos da tribo e que traz proteção, se aparecesse para nós, em nossas mentes eu digo, era para nossa proteção e para trazer mensagens.

A Jiboia foi minha companheira a noite toda, de todas as formas, eu vi a cobra com os olhos fechados como se fosse um caleidoscópio, seu corpo girava sem parar em todas as cores neon enquanto seus olhos me encaravam. No início achei estranho mas depois de um tempo me acostumei e deixei-a por perto, senti até me tornar a própria cobra algumas vezes. Vi a Jiboia na sombra do meu braço, na parede do banheiro, na grama do lado de fora do salão.

Depois de um bom tempo deitado, vendo aquela explosão de cores na minha mente, comecei a conversar comigo mesmo, na verdade eu não dormi, eu estava num estado consciente e inconsciente ao mesmo tempo, eu sabia onde estava, o que estava acontecendo mas não tinha forças para mexer nem um dedo se quer, nem vontade, queria mesmo ficar lá deitado, jogado na minha cadeira de praia, vendo as cores, a cobra, ouvindo as músicas que não paravam e achando que nada demais estava acontecendo, que a medicina não estava fazendo efeito em mim. Eu acredita que estava no controle, mas não tinha controle nem do meu pensamento.

Não era uma perda de controle ruim, pelo contrário, era como deixar de tentar controlar tudo, mas de uma forma confiante, sabendo que estava tudo bem, que podia relaxar e viver o que tiver que viver estando protegido, é largar mão desse controle insano que tentamos ter no nosso dia a dia, você entende o que quero dizer? Largar mão do ego, confiar, acreditar, embarcar na viagem, ser 1 com o todo.

Como minha audição estava muito aguçada parecia que todos conversavam comigo e por isso eu ficava tentando responder tudo que ouvia.

Eu via tudo que estava acontecendo ao meu redor, mesmo com os olhos fechados, via através das pálpebras, tocava meus olhos comprovando que estavam fechados mas continuava vendo tudo. Vi pessoas saindo e voltando do salão, me mexia na cadeira e virei para o lado da parede, mas não tinha mais parede ali, vi a fogueira do lado de fora e 2 índios cuidando do fogo. Tive vontade de me levantar e caminhar lá fora.

Consegui me levantar e fui andar na grama, olhei o fogo e poucas pessoas estavam ali fora. Caminhei cambaleando, não conseguia me firmar no chão. Olhei uma árvore e senti que ela me chamava, fui até ela, abracei a árvore e beijei seu tronco, senti uma conexão tão grande que parecia que entrava dentro dela, senti o espirito da árvore entrando em mim, afastei-me um pouco do tronco mas eu estava enroscado em um cipó bem fino, não sabia se o cipó vinha da árvore ou se saía de mim, mesmo assim caminhei sentido fogo com o cipó enroscado no meu braço direito até encontrar seu final, voltei até o tronco e o entreguei à árvore.

Ayahuasca 4

Aproximei-me da fogueira e o movimento dos 2 índios que cuidavam do fogo me atraía demais, os 2 dançavam em frente as chamas num movimento contínuo para frente e para trás, um deles segurava um cajado de madeira numa das mãos. Cheguei mais perto, a fogueira ficava no centro de um círculo de pedras, um espaço sagrado, num impulso, tentei entrar no círculo para tocar o fogo, um dos índios me segurou pelo braço dizendo que eu não podia entrar.

Segurei sua mão e olhando em seus olhos agradeci por me proteger e por proteger o fogo, então ouvi as labaredas queimando a lenha e falando algo, eu disse aos índios que o fogo estava falando.

– O fogo fala irmão, escute o fogo, ele tem uma mensagem para você. Disse um dos índios.

Tentei ouvir a mensagem mas o barulho era muito alto e eu não conseguia entender.

Senti vontade de ir ao banheiro, meu intestino soltou, saí do banheiro e Mapu abria a segunda rodada do Rapé, não senti vontade de usar, voltei para o mato.

Olhei para o céu e quase comecei a chorar quando olhei as estrelas, elas estavam enormes e brilhavam muito forte, um sentimento de gratidão invadiu meu coração e sentia vontade de agradecer a tudo que estava vivendo, senti um amor imenso pela medicina sagrada, pelas pessoas que estavam ali ajudando a nos curar, pelo ritual, pela terra, pelas árvores, pelo vento, pelo fogo, pela água, sentia que fazia parte de tudo, como se minhas células estivem todas conectadas com o universo, com as outras pessoas, os elementos, com as estrelas…

Olhei novamente para a árvore que havia abraçado antes, senti que ela me chamava novamente porém dessa vez seu tronco dançava como se tentasse me seduzir, e conseguiu, pois fui caminhando calmamente pelo mato na direção da árvore, senti vontade de urinar no mato e o fiz, depois me aproximei da árvore, abracei-a devagar e encostei minha cabeça no tronco, fechei meus olhos e senti que algo saía de dentro de mim e entrava na árvore, as cores eram tão vivas que pareciam desenho animado, vi caracóis e lesmas penetrando o tronco, depois saí rapidamente de perto como que desconectado de um sonho.

Voltei para o salão e a terceira rodada do rapé foi aberta, nesse momento eu me sentia muito bem já, como se o efeito do chá estivesse acabado, travei uma discussão comigo sobre receber o sopro do rapé ou não, mas me convenci a ir e assim o fiz.

Esse segundo sopro foi mais forte que o primeiro. Queimou minha narina, eu tentei segurar o máximo e não respirar pelo nariz, consegui ficar assim um tempo, respirando somente pela boca, mas não aguentei muito tempo, limpei logo o excesso e em seguida comecei a passar mal e a vomitar sem parar no meu saco plástico.

Ouvia pessoas rindo no salão, mas não era para mim e sim para contemplar a cura, essa é a palavra que mais ouvia, cura, cura. Então cada vez que vomitada eu pedia cura, pensava em cura, sabia que ninguém ali estava me julgando e mais do que isso, sabia que estava protegido por aquelas pessoas que nunca havia visto na vida.

Uma das meninas do apoio me perguntou se eu queria dar meu saco plástico para ela jogar fora, eu me sentia protegido com ele, ela abriu um outro e trocou com o meu rapidamente para me manter protegido.

Mas a vontade de vomitar foi embora, consegui me controlar, havia uma briga ainda dentro de mim sobre a necessidade de vomitar mais ou não, até que ponto era o certo? Quanto mais seria suficiente para estar curado? Não sabia responder mais fiquei com a pergunta rondando minha mente.

Resolvi dar mais uma volta pelo mato e vi que o efeito da Ayahuasca continuava porém em menor grau agora.

Senti vontade de urinar novamente, essa vontade não passava para falar a verdade, toda hora queria dar uma mijada. Acho que estava limpando pelos rins também. Quando pensei em urinar no mato começou a tocar uma música sobre a terra, sobre o amor a Gaia, Pachamama, então senti que não podia fazer aquilo na terra, que era impuro, pedi perdão a terra. Cada música mexia demais comigo, fui até o banheiro para me aliviar.

Voltei para o meu canto, meus vizinhos do cantinho perguntaram se eu estava bem, lembro que respondi sorrindo que eu estava ótimo.

Minha viagem agora era pelo amor a medicina, pensei em seguir a tribo, precisava saber onde encontrá-los para viver aquela experiência novamente, será que eu estava viciado? Não sabia explicar isso mas eu sentia amor, puro, verdadeiro e incondicional.

Houve uma outra vez, há muitos anos atrás, que senti esse amor tão forte dentro do peito. Isso aconteceu em 2002, na missa de sétimo dia da minha mãe. Cheguei no final da missa anterior, uma missa que a igreja católica chama de adoração ao santíssimo, um coroinha passou com o crucifixo na frente e o padre logo atrás com aquela luz vermelha, que representa a presença de Jesus Cristo. Quando o padre passou perto de mim com aquela luz eu senti um abraço na alma, fechei meus olhos imediatamente e senti os braços de alguém tocar meu espirito, meu coração se aqueceu e senti muito amor, mais amor que jamais havia sentido em toda minha vida. Saí correndo do local onde estava e me escondi atrás da porta da igreja e caí no choro.

Mapu abriu a segunda rodada da Ayahuasca e eu não tive a menor dúvida sobre receber a segunda dose.

Eu sabia que estava completamente entregue a ação do chá e queria ir mais fundo ainda nas minhas curas, no meu detox, no que tivesse que ser colocado para fora, fosse física ou emocional.

Sentia um profundo respeito a tribo do Mapu e pela força da floresta, pela sagrada medicina e pelo universo em geral.

Após tomar a segunda dose voltei para minha cadeira de praia, as luzes voltaram a surgir na minha tela mental, a Jiboia voltou a dançar ao ritmo das músicas xamanicas. Eu me divertia com as imagens, me distraia com a dança até sentir que aquilo me tirava o foco do que eu realmente fui fazer lá e novamente achei que estava no controle da situação.

Olhei ao redor e vi que a lua brilhava lá fora através das paredes, quis me levantar mas não tinha forças para me mexer, desisti e voltei a me deitar por mais um tempo.

Não sei dizer o quão fundo estava indo em meu processo, nem quanto tempo já havia se passado desde o início da consagração, recuperei minhas forças e consegui me levantar, não existia nenhum aparelho eletrônico ligado, não havia relógios para saber o tempo, nem celulares. Tentei me orientar pela cor do céu, se já estava clareando ou não, a lua nos iluminava bem no alto de nossas cabeças e as nuvens passavam apressadas por ela. Um sentimento ruim invadiu meu peito e a música começou a me incomodar, queria que parassem de cantar aquela letra, tive medo do que poderia surgir nas próximas músicas, olhei para a estrada de terra e lama que levava ao portão de saída do sítio, pensei em ir embora, queria sumir daquele lugar, fugir, não voltar nunca mais, maldizer a medicina, é isso que fazemos quando não conhecemos algo a fundo, a gente fala mal, é mais fácil do que estudar e entender, é mais simples se unir ao preguiçoso pensamento coletivo e agir, como dizia minha mãe, como Maria vai com as outras.

Foi nesse momento que percebi que quem queria fugir dali era o meu medo, minhas dores e meu ego que lutavam heroicamente para continuarem vivos e no controle, mesmo incerto e com receio do que iria me acontecer eu decidi lutar contra esse sentimento e ficar até o final. A nova música começou e repetia a palavra cura, cura, cura. Era isso que eu queria, que buscava, cura.

Minha boca começou a salivar novamente e saí correndo para o mato e comecei a vomitar, um dos índios da fogueira veio até mim e me segurou pela cintura para me apoiar e não cair de cara no meu próprio vômito.

– Coloque para fora, vai, deixa sair, cura. Disse o índio me segurando.

Quando parei de vomitar ele disse ainda tinha mais para sair, apertou alguns pontos do meu estômago e vomitei mais um pouco.

Depois ele se abaixou ao meu lado para conversar comigo, disse que eu precisava cuidar da minha alimentação, para que fosse mais natural possível e outros conselhos mais íntimos que não vou dizer aqui.

Ele perguntou meu nome e depois disse que nunca esqueceria de mim.

– Eu nunca me esqueço de um rosto.

Então eu perguntei o nome dele.

Ele me olhou nos olhos com um sorriso no rosto e disse:

– Eu sou o Mau.

Saiu rindo e eu disse que jamais esqueceria dele também, afinal ele é o Mau.

Levantei-me e voltei para perto do fogo, o Mau então apontou uma cadeira branca do lado de fora do círculo e disse para me sentar nela.

Mau começou a conversar com o outro índio que cuidava do fogo junto com ele, ouvi cada palavra que ele disse ao índio, mesmo conversando baixinho e com o barulho alto da fogueira.

Então o outro índio veio na minha direção, não havia reparado antes mas havia outra cadeira bem ao lado da minha, ele passou por mim e quando foi se sentar eu imediatamente passei a mão na cadeira e retirei dela um tubo de vidro de rapé que eu nem sabia que estava ali, ele se sentou e eu entreguei o vidro em suas mãos. Ele perguntou se o vidro era meu, respondi que não.

– Por que você esta me dando isso então?

– Porque estava na cadeira e você poderia se machucar.

– Obrigado, você me protegeu.

– Um cuidando do outro, assim que deve ser. Qual o seu nome? Perguntei.

– Sebastian.

Eu ri, olhei em seus olhos e disse que Sebastian é o nome do meu pai, Sebastião.

– Você sabe que não é por acaso que estou aqui, não é? Disse o Sebastian.

– Claro que sei. Respondi. Mesmo porque acaso nem existe.

Ele então se aproximou mais de mim como se eu fosse dar uma aula sobre algo mais profundo, tive a sensação que não era eu quem estava falando.

– O que existe então? Perguntou o índio.

– Sincronia Sebastian, o universo inteiro esta em sincronia. Tudo esta no lugar certo, no momento certo. Como se fosse uma grande engrenagem girando aos poucos e encaixando tudo no seu devido tempo e espaço.

Sebastian colocou a mão direita no meu ombro e perguntou qual era a mágoa que sentia do meu pai.

Confesso que não pensava sentir magoas do meu pai, mas ele estava certo, havia algo preso dentro de mim. Ele não esperou uma resposta, apenas me disse para pensar.

Depois olhou dentro dos meus olhos e disse que iria me dar um presente. Com a mão esquerda tocou o meu peito e disse:

– Sabe o que tem aqui?

– Meu coração. Respondi.

– Deus! É Deus que esta aí dentro e é Ele que esta te mandando esse presente agora.

Um outro rapaz veio do salão carregando um galho na mão, entregou-o ao Sebastian e falou algo muito baixo em seu ouvido, dessa vez eu não consegui ouvir.

Sebastian voltou a me olhar nos olhos:

– Você sabe qual o presente que Deus esta mandando para você agora?

– Qual o presente?

– Liberdade, esse é o seu presente, Deus esta te entregando a sua liberdade. Você quer esse presente?

– Quero, é isso que eu mais quero, é isso que vim buscar aqui.

– Então esse galho é seu, quero que o aceite e coloque todas as suas magoas nele, pensamentos negativos, dores, medos, ressentimentos, raiva, ódio, tudo que tiver de ruim dentro de você, quero que coloque nesse galho. Mas você precisa fazer isso com seriedade, com compromisso, você fará isso?

– Sim, eu farei.

– Então quando você estiver pronto eu voltarei.

A partir daí comecei a ter um verdadeiro processo com o meu galho, fechei os olhos para sentir o que precisava colocar para fora, cores e mais cores surgiam e, sempre que abria os olhos, algum sentimento vinha, uma lembrança, uma magoa, pouco a pouco fui colocando todos os sentimentos no galho. Tive vontade de colocar a ponta no fogo, encostei o galho no tronco em chamas mas ele não se queimou, parecia madeira verde. Alguém sentou na cadeira ao meu lado e puxou assunto, eu respondi a pessoa e o Sebastian voltou e me disse para ter foco.

Olhei para a cadeira e a pessoa não estava mais lá.

Então Mapu saiu do salão e veio agradecer os índios da fogueira. Pois eram de tribos diferentes. Enquanto isso continuei meu processo, fechei os olhos e ouvi o cacique falando comigo:

– Agora você solta.

Abri os olhos e eles continuavam conversando ao lado do fogo, se abraçaram e Mapu voltou para o salão, Sebastian sentou-se ao meu lado e perguntou se eu estava pronto. Respondi que sim.

– Você esta realmente pronto? Não tem mais nada aí dentro para colocar no galho?

Fechei meus olhos e senti uma certeza muito grande de que estava tudo na madeira.

– Sim Sebastian, esta tudo aí, estou pronto.

– Então vamos para a fogueira.

Ele me segurou pelo ombro e me guiou, o Mau que estava cuidando do fogo saiu da frente e de perto de nós. Sebastian me posicionou bem de frente a fogueira em forma de V e me disse para pedir licença e aproveitar o fogo.

O fogo mudou de direção e a fumaça veio toda em cima de mim, fechei os olhos e abri os braços deixando a fumaça me envolver completamente. Depois o vento mudou de direção, ajoelhei-me diante do fogo, pedi licença e coloquei o galho bem no meio do V, dessa forma somente as pontas do galho tocaram as chamas enquanto o tronco todo ficou deitado na lama.

Sebastian virou-se para mim e perguntou:

– Você viu o que você fez?

– O que eu fiz. Respondi quase chorando.

– Você entregou, irmão, você esta deixando ir todas as suas mágoas, pois você é muito maior que todas elas juntas. O que você quer fazer agora?

– Quero que o fogo queime tudo.

– Quer irmão? É isso que você quer mesmo?

– Sim, é isso que eu quero.

– Então queima fogo. Virou de costas e o galho inteiro se incendiou na minha frente. Mesmo a parte caída na lama, tudo se queimou e virou cinzas em segundos, nunca vi uma madeira queimar tão rápido como aquele galho.

Sebastian voltou para o meu lado todo feliz.

– Isso irmão, acabou. Você escolheu. Todos os dias Deus no dá um galho desses, a gente que escolhe pegá-lo ou não. Agora você esta renascendo, chegou a hora de firmar seus pés na terra e parar de andar como folha ao vento.

Olhou no fundo dos meus olhos e disse algo que me tocou mais forte ainda.

– E esse livro é teu, ninguém mais poderá escrever esse livro, nenhuma idéia alheia, ele é somente seu. Você que escolhe, sempre é você que escolhe. Ninguém tem culpa de onde você esta agora, a escolha é sua, não foi seu pai, seus irmãos que escolheram, foi você, essa é a sua história e é somente você que escolhe.

Então ele saiu para pegar mais lenha. Fiquei mais um pouco perto do fogo e depois me deu vontade de sair, mas eu precisava de um dos índios para isso. Então lembrei do que Sebastian havia acabado de me dizer, “é você que escolhe”.

Pedi licença ao fogo, agradeci pelo presente e saí sozinho. O Sebastian surgiu do meu lado segurou meu ombro e perguntou:

– Você precisava de mim para sair do fogo?

– Não, não precisava pois sou eu que escolho.

Ele riu e saiu de perto para cuidar das chamas.

Ayahuasca 5

O ritual estava no fim, a música foi se acalmando e o dia clareando, sentei-me em outra cadeira para ver o sol nascer. Fomos chamados de volta para o salão onde fizemos novamente uma roda e oramos, cantamos e agradecemos a medicina por toda cura ocorrida naquela noite.

Depois nos serviram frutas e uma sopa e todos se abraçaram.

Saí de lá apaixonado pela terra, por aquelas pessoas, sentindo muito amor, respeito ao solo, a mata, ao ser humano, aos animais, aos elementos, ao universo.

Termino aqui meu relato, sem julgamentos, foi apenas meu desejo de compartilhar meu processo de forma pura e verdadeira. Não me tornei viciado no chá, não se trata de droga ilícita, e sinto um respeito gigantesco a mata e aos índios, verdadeiros donos dessa terra, agora mais do que antes.

Haux. Que venha a cura.

André Silva

Pela manhã Sebastian chegou ao meu lado e, segurando seu cajado de madeira perguntou:

– André, você esta enrolando ou escrevendo?

– Eu estou escrevendo. Respondi com firmeza.

Comentários

  1. Que lindo!! Quanta coragem em vivenciar e ultrapassar os medos e sentir a verdadeira magia do pulsar da vida repleta de cura e amor incondicional!! Haux☀️

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